O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs

O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs

Cativante. Uma história fantástica com um toque de X-MEN. Assim pode ser descrito “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares”.

Tudo começa com Jacob (Jake) em sua infância ouvindo as histórias do seu avô paterno — Abraham Portman, carinhosamente chamado de Abe por alguns personagens — sobre uma época em que ele passou em uma ilha do País de Gales — Cairnholm — durante o período da Segunda Guerra Mundial. Essas são histórias sobre as crianças que vivam no orfanado na época em que ele mesmo foi morar lá. Histórias fantásticas sobre um lugar encantado parado no tempo onde as crianças poderiam viver seguras para sempre e, o melhor, elas são ilustradas com fotografias antigas guardadas pelo avô.

Com o passar do tempo, no entanto, Jacob vai deixando de acreditar nelas e passa a considerá-las fantasia, como uma fuga do avô para os traumas vividos há época da guerra. As fotografias, então, passam a ser consideradas meros truques de montagem rudimentar. Ou assim ele crê até o momento em que uma tragédia acontece na família e ele vê coisas que não deveria. Desesperado, Jake começa a se consultar com um psiquiatra e, com a sua aprovação, combina com seu pai uma viagem para a ilha onde o pai dele morava.

O pai de Jacob, estudioso amador de aves, dedica seu tempo a estudar uma espécie existente em Cairnholm, local onde nidificam, enquanto o filho procura o antigo orfanato para ver se encontra algum resquício da antiga vida do avô. Contudo, desde a chegada dos dois estrangeiros ao local, uma onda de coisas estranhas começam a acontecer. Jake se aprofunda em sua pesquisa e acaba encontrando as antigas crianças e, a partir de então, inicia-se uma sequência de acontecimentos que vão deixar o leitor encantados e, ao mesmo tempo, sem fôlego.

A Construção

Bem construída, todos os elementos se encaixam perfeitamente. A narrativa do autor é gostosa e de fácil leitura. O único problema é que os capítulos são grandes demais, o que pode ser incômodo para quem gosta de ler o capítulo inteiro antes de pausar. O único alívio é que cada capítulo é dividido em inúmeras cenas, então as pausas podem ser realizadas nelas, mas, no meu entender, cada cena dessa tinha conteúdo suficiente para formar uma unidade completa. Assim, o livro poderia calmamente ter vários capítulos de tamanho menor.

Fora esse detalhe, contudo, o enredo é bem trançada. As costuras são bem-feitas. Não consegui encontrar nenhuma falha na história que depreciasse muito sua pontuação. Os personagens são cativantes e integram bem o enredo proposto. Não há nada muito profundo neles, mas todos os peculiares participam da história e no geral todos tiveram seus papéis bem definidos. O final é bem amarrado e deixam preparados os gatilhos para o segundo volume da série. E, para ficar um trabalho espetacular, sempre que uma criança peculiar é mencionada pela primeira vez, o autor coloca uma fotografia que ilustra o personagem com a sua peculiaridade. Ransom Riggs garante que as fotos são autênticas e não montagens. Se é verdade ou não eu não tenho como atestar, mas é fato que as ilustrações agregam muito valor à narrativa.

A Tradução

A tradução é tranquila, apesar de uma pequena falha quando é mencionado uma obra de Michelangelo: A criação de Adão. Por se tratar de uma obra artística, de cunho bíblico, com nome definido em português, o tradutor deveria ter nomeado corretamente, mas, ao contrário, no livro está como Adam no lugar de Adão. Entretanto, fora esse aspecto bizarro — não se preocupem, eu sei que sou chato quanto a esses quesitos — o resto do texto foi bem traduzido de acordo com os padrões de escrita e leitura do nosso idioma.

Diagramação

Aqui está o grande pecado do livro. A versão impressa não apresenta problemas, mas eu li a digital e ficou claro que a editora LEYA não teve cuidado algum com os leitores de e-books. Na plataforma eletrônica quase não há o destaque para a primeira linha, cuja a distância para a margem é de praticamente meia letra. Junto com o fato que os parágrafos são praticamente colados uns nos outros, a litura pode ficar prejudicada. Não me incomodou tanto assim, mas a editora perde um pouco de credibilidade.

Ou problema é que, como mencionado anteriormente, o livro tem algumas ilustrações. Duas dessas ilustrações são de cartas e o texto é manuscrito nelas. No livro impresso, com um tamanho grande de página, a leitura do texto nas imagens é tranquila, mas em um leitor de 6 polegadas o texto é praticamente ilegível, já que, ao contrário do texto, as imagens não podem ser redimensionadas para um tamanho maior. E, esperar uma transcrição do conteúdo dessas cartas em um texto legível para um leitor digital é demais para a LEYA, pelo visto.

Por esses problemas e outros, a diagramação digital não vale nada. Eles deveriam lançar logo uma segunda versão para plataformas eletrônicas com as correções desses problemas. Seria o mínimo de respeito com os seus leitores.

O Filme

Eu considerei bastante se deveria ou não falar dele aqui. Geralmente quando vai ter a estreia de um filme adaptado de um livro, eu gosto de lê-lo antes de ver a adaptação pois, caso contrário, dificilmente vou conseguir ler o livro. E eu gosto de fazer uma resenha comparativa, como vocês já podem ter visto na resenha de “Como eu era antes de você”. Contudo, nesse caso específico eu fiquei em dúvida pelo simples fato que o filme é uma piada de mau gosto.

Sabe quando você pega uma lata de refrigerante de laranja ou uva e vê escrito “2% de suco”? É a mesma coisa, se o filme tem 2% da história original é muito. O autor só permitiu a adaptação pelo dinheiro. De outro modo não há explicação. São duas histórias diferentes. Praticamente nada que acontece no livro tem no filme e nada do que acontece no filme está no livro. Simples assim!

Como eu disse anteriormente, a história é muito bem amarrada e termina com os gatilhos para o segundo volume. No filme não. Não sei como se dará a continuação. Não sei sequer se realmente haverá uma. Tim Burton mandou muito mau. Ele mudou coisas inimagináveis como os poderes da protagonista. Tá certo que na história dele não teria como ser diferente, mas pra quê mudar tanto? Será que foi chilique. Ele mudou até mesmo o ano em que se passa a história, aumentando em 3 anos. Não faz sentido algum.

No final das contas não dá para chamar o filme de adaptação. As histórias são radicalmente diferentes. Tim Burton teve algum chilique e mudou tudo. E o pior, perdeu a linha de história que Ransom Riggs tinha escrito. A única explicação para ele ter autorizado essa adaptação é o dinheiro mesmo, porque o diretor queimou o filme depois de tantos trabalhos espetaculares.


Livro: O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares
Autora: Ransom Riggs

D. M. Bittar

Nascido em 11/08/1980 em Brasília. Morou a vida toda na cidade. Se formou em Ciência da Computação pela Universidade Católica de Brasília e atualmente trabalha na área. Formou-se teatro na Companhia da Ilusão. Ama as artes cênicas e possui a leitura, a escrita e o teatro como principais hobbies.

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