Outubro, de Kamile Girão

Outubro, de Kamile Girão

Lindo, emocionante e muito fofo! É estranho dizer que o livro é fofo, mas é exatamente esse o tipo de romance que se encontra na história. É um livro para ler e amar. Os personagens são apaixonantes e, se você já foi adolescente e já amou, com certeza irá sentir o que eles sentem. É uma história emocionante em que é impossível ler sem derramar uma lágrima a cada capítulo.

O enredo gira em torno de dois personagens centrais — Kaero Morgan e Felipe Alves, também conhecido como Shau — e de formam muito poética faz com eles uma alusão com as estações do ano, sendo o outono e o inverno, antecessores da primavera, as principais:

— Você sabe, Shau, por que as folhas caem durante o outono?

— As folhas caem para dar lugar às novas que irão surgir na primavera. Os momentos da nossa vida são como essas folhas. Elas nascem, perduram por um tempo e caem. Porém, outros virão. Sempre temos a chance de recomeçar do zero, de perder nossas folhas velhas e dar lugar às novas e mais belas. Temos a chance de esquecer os momentos ruins, de deixá-los serem levados pelo vento e dar origem a novos que serão melhores. E, aqueles que caíram e foram bons, a gente guarda no coração. As folhas velhas nunca voltam às árvores que as originou.

Assim, Kaero e Shau vivem, lá pelos seus 17 anos, um romance adolescente na pura expressão do amor e, se você acha que adolescentes não podem amar de verdade, está perfeitamente enganado. Tudo começa quando ela, uma verdadeira musicista, assume o papel de professora de piano substituta e auxiliar de coral na escola em que Felipe estuda. Ela trabalha desde cedo pelo interesse em juntar dinheiro afim de se mudar para a Inglaterra no fim do ano, quando se formar, de modo a estudar nas melhores escolas de música e alcançar sucesso.. Contudo, eles se conhecem. Ela não demonstra interesse imediato, visto o interesse em ir morar em outro lugar, mas ele fica completamente perdido por ela desde o primeiro momento. Com o desenrolar da trama, no entanto, tudo conspira para que eles se apaixonem perdidamente. E é o que acontece.

Entretanto, desde o começo, lá no primeiro capítulo do livro, já sabemos que o romance deles, na adolescência, não avançou. Eu posso dizer isso sem preocupação, pois essa é a primeira informação que o livro te dá sobre os dois. Já com os 27 anos, Kaero está internada em um hospital, com uma severa pneumonia decorrente de ser portadora de HIV, e Felipe Alves é um dos enfermeiros do local. Por essa razão eles acabam se reencontrando e revivendo as dores e os sentimentos do passado. O problema começa aqui. Com o passar do tempo e a convivência que surge entre os personagens descobre-se que, por uma razão qualquer, Shau se culpa por tudo o que aconteceu com Kaero, fato esse que causa estranheza uma vez que ele mesmo não é portador da síndrome. Então o leitor começa a se questionar, como pode ele ser culpado de tudo e ao mesmo tempo não ter nada do que ela tem? A resposta para essa pergunta é a minha primeira e uma das poucas razões de crítica negativa ao livro. Todavia, eu não posso escrever aqui sem dar spoilers da história. Assim, caso você ainda não tenha lido o livro e não queira ler spoilers, pare aqui! Caso contrário, só seguir adiante.

À medida que a narração corre, o leitor vai recebendo várias informações que levam a uma desconfiança e, quase nos últimos capítulos, vem a confirmação: Kaero ficou grávida de Shau e fez um aborto. Como o procedimento não é legalizado no Brasil, ela acaba realizando-o em um ambiente clandestino inadequado, por uma pessoa não capacitada e com o uso de instrumentos não esterilizados, o que destrói grande parte do seu útero e a faz contrair AIDS. Até aí tudo bem. A crítica fica pelo tom que a autora, Kamile Girão, usou para tratar do assunto. No começo eu estava tendendo a entender a situação como uma crítica feminista ao fato do aborto não ser legalizado por aqui, mesmo com as consequências psicológicas para a menina. Contudo, em pouco tempo o entendimento muda para percepção de um tom mais religioso e julgador na forma da escrita quando a autora, na narrativa (e não na opinião de um personagem singular qualquer), descreve o ato como “abjeto” e outros adjetivos similares. Por mais que seja um direito dela ter sua opinião, a situação no livro não condizia com a expressão dela. Mesmo porque, em um caso real, não cabe a ninguém julgar e emitir opiniões sobre esse tipo de coisa. Então a ocasião poderia ter sido usada para uma boa crítica à situação legal do país em relação ao tema ou, ao menos, ter permanecido neutro. Voltando à história, do ocorrido, visto que Felipe só ficou sabendo quando não tinha mais o que fazer, percebe-se que a culpa que ele sente é quase infundada. Seu único erro real foi o de também ter julgado a menina quando o que ela realmente precisava era de apoio e suporte.

As outras duas críticas se resumem a uma certa falta de cuidado com a questão das datas e uma certa estranheza em alguns pontos da narrativa. A história é escrita, em cada capítulo, por trechos do passado divididos na visão do Shau e da Kaero, sendo o último caso geralmente escrito por um diário datado (que é usado para datar a maior parte do capítulo) e por um trecho do presente com a situação atual deles dois. Entretanto, em um determinado capítulo, houve uma confusão com o ano de 2004 e 2005. Percebia-se qual era a data que deveria ser pela linha temporal do enredo, mas houve essa troca que acabou ficando notável pela ocorrência. Quanto à narrativa, para evitar repetir muitas vezes o nome das personagens ou alguma determinada palavra, os trechos são escritos de uma forma que parece forçada, não natural. Isso causou-me certa estranheza, mas não é nada grave. Esses dois erros, na verdade, não ocorreriam em caso de uma publicação profissional, com revisão e análise crítica; mas como aqui no Brasil é difícil publicar um livro e, nesse caso, trata-se de uma publicação independente com baixo custo, os erros são compreensíveis e perfeitamente perdoáveis, não interferindo em nada no prazer da leitura.

Superado os problemas, trata-se de uma história apaixonante, muito triste e que certamente vai te levar às lágrimas. Kaero e Shau são os típicos adolescentes apaixonados fazendo suas burradas e sofrendo com elas. E a gente, com eles! Até o ponto em que cai a última folha do outono, no final de Outubro, e eles se separam: ele fica aqui e ela vai embora para a Inglaterra. Nós, como leitores, sentimos todo o peso dessa separação. A dor só não é maior pela delicadeza da autora em intercalar o presente com o passado e, por isso, sabemos que, apesar das burradas e da separação, eles agora têm uma nova chance de recomeçarem e serem felizes. Mesmo porque é patente que, decorrido todo o tempo, o amor ainda persiste e eles continuam perdidamente apaixonados um pelo outro. E eu pela Kaero! Sinceramente, eu gostei tanto dela e imaginei-a com tamanha perfeição que eu estou completamente apaixonado por ela também. Só sinto não ter capacidade alguma de desenhar e poder eternizar a Kaero que eu imagino.

Bem, caro leitor, com certeza vocês hão de amar esse livro se arriscarem uma leitura, o que não é difícil visto que ele está bem baratinho na versão para Kindle e ainda está disponível para o Kindle Unlimited. Eu só sinto pelo fato de não existirem mais versões impressas. Quando eu fui comprar já havia se esgotado. Então só resta torcer por uma nova edição em papel porque existem muitas pessoas para quem eu gostaria de dar uma cópia do livro e, infelizmente, essas pessoas não leem livros digitais. Contudo, se você, leitor, não tem problema com eBooks dê uma chance. Não ira se arrepender! E para quem teve a oportunidade de ler Yume, aproveite para reparar como a autora se inspira pela música. Não pude deixar de notar isso. E é até engraçado perceber o processo criativo das pessoas. Eu mesmo crio muitas histórias baseadas em imagens que eu vejo e ela, nas músicas. Ou assim parece.

Bem, eu fico por aqui. Não se esqueçam de ver o vídeo no Youtube e deixar seus comentários aí em baixo. Até a próxima!


Livro: Outubro
Autora: Kamile Girão

D. M. Bittar

Nascido em 11/08/1980 em Brasília. Morou a vida toda na cidade. Se formou em Ciência da Computação pela Universidade Católica de Brasília e atualmente trabalha na área. Formou-se teatro na Companhia da Ilusão. Ama as artes cênicas e possui a leitura, a escrita e o teatro como principais hobbies.

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